A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro implementou, a partir de agosto, novas estratégias voltadas à identificação e ao tratamento de indivíduos envolvidos com apostas em jogos e suas famílias dentro da Atenção Primária. As iniciativas incluem um rastreamento do vício em jogos durante consultas de rotina, similar ao que já ocorre com o tabagismo e a depressão.
Durante os atendimentos, profissionais de saúde realizam duas perguntas específicas sobre o envolvimento do paciente com apostas, registrando as respostas nos prontuários. Caso o paciente indique qualquer sinal de problema, um alerta é acionado para garantir que ele receba a atenção necessária. O prefeito Eduardo Cavaliere destacou que o Rio de Janeiro, já reconhecido por ser pioneiro no combate à publicidade de apostas, agora também se mobiliza para enfrentar essa questão na área da saúde.
Nos primeiros dias de implementação dessa estratégia, foram identificadas 22 pessoas que confessaram sentir compulsão por jogos, o que representa cerca de 1% de um total de 3.070 atendimentos realizados. Além disso, 15 indivíduos admitiram ter ocultado de suas famílias os gastos com apostas. O plano inclui avaliações clínicas detalhadas e a elaboração de um tratamento individualizado, que pode variar de orientações simples a acompanhamento especializado, dependendo do nível de risco identificado. O apoio a familiares também é parte fundamental, mesmo que o apostador não busque ajuda imediatamente.
Rodrigo Prado, secretário municipal de Saúde, enfatizou que o vício em apostas é um grave problema de saúde pública, manifestando-se frequentemente por meio de ansiedade, insônia e até violência doméstica. Ele ressaltou a importância de não aguardar que os pacientes procurem ajuda por conta própria, mas sim de adotar uma abordagem proativa para identificar e tratar esses casos.
Além disso, o plano inclui a capacitação de agentes comunitários de saúde e profissionais das unidades de saúde, com treinamentos especializados oferecidos pelo Ministério da Saúde, e a distribuição de materiais informativos para a população sobre como buscar auxílio.
A motivação para essa nova abordagem surgiu da observação de um aumento no número de usuários em busca de ajuda relacionada ao vício em apostas, tanto por conta própria quanto através de familiares. O rastreio já era uma prática adotada em centros de saúde mental, mas percebeu-se a necessidade de estendê-lo às clínicas da família e centros municipais de saúde. Um levantamento realizado pelo Núcleo de Inteligência Assistencial da SMS revelou que 1.378 pessoas relataram sofrimento relacionado a apostas, apresentando sintomas como ansiedade e depressão, além de dificuldades financeiras em suas famílias.
Entre os identificados, a maioria dos apostadores que buscaram ajuda era do sexo masculino, com uma idade média de 37 anos. Por outro lado, a maioria dos familiares afetados eram mulheres, em sua maioria esposas e mães de apostadores, com idades acima dos 40 anos. Um dado alarmante foi a identificação de 25 pacientes com menos de 18 anos, a maioria deles meninos, refletindo a crescente presença de aplicativos de apostas e jogos de azar de fácil acesso entre os jovens.