Brasil busca espaço estratégico na nova economia da inteligência artificial
O Brasil poderá ganhar uma nova perspectiva de inserção no cenário internacional da inteligência artificial durante o WITSA Global AI Summit 2026, marcado para os dias 1º e 2 de setembro, em Taipei, Taiwan. Robert Janssen, CEO da OBr.global e presidente da Assespro-RJ, levará ao encontro uma proposta baseada no conceito de Soberania Inteligente, modelo que procura ampliar a autonomia tecnológica dos países sem defender isolamento ou autossuficiência absoluta.
Realizado no Grand Hotel, o evento reunirá representantes da indústria, especialistas, formuladores de políticas públicas e lideranças de diferentes mercados. A programação também será marcada pelo lançamento do WITSA Global AI Index, iniciativa voltada à análise do desenvolvimento da inteligência artificial em escala internacional.
Autonomia tecnológica sem a necessidade de fazer tudo sozinho
A tese defendida por Janssen parte de uma constatação pragmática: para exercer soberania na era da IA, um país não precisa necessariamente controlar todas as etapas da cadeia tecnológica. Fabricar semicondutores avançados, criar grandes modelos de linguagem e desenvolver internamente cada componente de infraestrutura não seriam, por si só, os únicos critérios capazes de determinar o grau de autonomia de uma nação.
A Soberania Inteligente propõe outro parâmetro. O essencial seria garantir capacidade para escolher tecnologias, estabelecer regras para o uso de dados, proteger infraestruturas estratégicas e manter serviços essenciais mesmo diante de mudanças comerciais, tecnológicas ou geopolíticas. Nesse contexto, autonomia estaria mais relacionada ao poder de decisão e adaptação do que à tentativa de eliminar toda dependência externa.
Energia, dados, escala e conhecimento setorial entram no centro da estratégia
A proposta que será apresentada em Taipei destaca quatro ativos que podem favorecer o Brasil na disputa por espaço na economia global da inteligência artificial: energia, dados, escala de mercado e competências desenvolvidas em setores específicos da economia.
Esses fatores poderiam permitir ao país ocupar uma posição relevante tanto na oferta de capacidade computacional quanto no desenvolvimento de aplicações especializadas de IA. A ideia não seria competir em todas as frentes simultaneamente, mas identificar áreas nas quais as condições brasileiras criam oportunidades concretas de diferenciação.
Com uma economia ampla, grande volume potencial de dados e experiência acumulada em diferentes setores produtivos, o Brasil pode estruturar uma agenda tecnológica conectada às suas próprias características. Essa abordagem se distancia da simples tentativa de copiar estratégias adotadas por Estados Unidos, China, Europa ou outras potências tecnológicas.
Estratégia brasileira busca construir vantagens próprias
Para Robert Janssen, o caminho do país deve partir justamente daquilo que o Brasil já possui e pode transformar em vantagem competitiva.
“O Brasil não precisa reproduzir o modelo tecnológico de outras potências. Temos vantagens próprias que podem nos colocar em posição de protagonismo em áreas-chave da inteligência artificial. Soberania Inteligente significa identificar essas forças, controlar aquilo que é crítico para o país, desenvolver onde podemos nos diferenciar e estabelecer parcerias estratégicas para acessar a fronteira tecnológica”, afirma.
A visão coloca a especialização no centro da política de IA. Em vez de direcionar esforços e recursos para tentar dominar indistintamente todas as tecnologias existentes, o país poderia concentrar investimentos naquelas capazes de gerar maior retorno estratégico, econômico e social.
Três pilares orientam a proposta de Soberania Inteligente
O modelo apresentado por Janssen organiza a atuação brasileira em três frentes complementares. A primeira consiste em manter controle sobre elementos considerados críticos para o funcionamento do país. Nessa categoria estão dados estratégicos, identidade digital, infraestrutura tecnológica e mecanismos de cibersegurança.
O segundo eixo envolve desenvolver capacidades próprias exatamente nos segmentos em que o Brasil reúne condições para criar diferenciação. Entram nessa agenda tecnologias de inteligência artificial voltadas à língua portuguesa, modelos especializados, aplicações desenvolvidas para setores específicos e o fortalecimento de empresas nacionais.
A terceira frente está relacionada ao acesso à inovação global. Em vez de buscar independência absoluta, a estratégia propõe diversificar fornecedores e parceiros para obter chips, infraestrutura computacional, grandes modelos de IA e conhecimento científico internacional.
Dependência concentrada pode se transformar em risco estratégico
Outro ponto destacado na proposta é a necessidade de reduzir vulnerabilidades provocadas pela concentração tecnológica. Quando uma infraestrutura ou tecnologia essencial depende exclusivamente de uma empresa, plataforma ou país estrangeiro, mudanças externas podem afetar diretamente a continuidade das operações nacionais.
Por essa razão, a Soberania Inteligente trata a diversificação como instrumento de segurança e poder de negociação. Quanto maior a capacidade de substituir fornecedores, adaptar tecnologias ou combinar diferentes soluções, menor tende a ser a exposição a decisões externas.
Sob essa perspectiva, soberania não significa necessariamente produzir tudo dentro das fronteiras nacionais. Significa evitar situações nas quais o país fique sem alternativas diante de restrições comerciais, rupturas de cadeias de suprimentos ou transformações geopolíticas.
Governo pode atuar também como indutor de demanda tecnológica
A estratégia apresentada por Janssen também propõe uma visão mais ampla para a participação do Estado. A atuação pública não ficaria restrita à elaboração de normas e regras para o uso responsável da inteligência artificial.
Governos poderiam utilizar compras públicas, políticas de inovação e mecanismos de incentivo para ajudar a formar um mercado nacional sofisticado de soluções de IA, estimulando o crescimento de empresas brasileiras e a criação de propriedade intelectual no país.
Esse ambiente poderia contribuir para atrair investimentos, ampliar oportunidades para profissionais especializados e reduzir a migração de talentos e ativos tecnológicos. Ao mesmo tempo, empresas brasileiras poderiam desenvolver soluções competitivas capazes de atender outros mercados e ampliar a presença do país nas cadeias internacionais de tecnologia.
De dependência tecnológica a capacidade de negociação
A mensagem que Robert Janssen pretende levar ao WITSA Global AI Summit 2026 pode ser resumida em uma combinação de seletividade e pragmatismo: controlar aquilo que é indispensável, desenvolver aquilo em que o Brasil pode se destacar e acessar tecnologias de ponta por meio de múltiplas parcerias internacionais.
A lógica procura substituir a busca por autossuficiência completa por uma estratégia de autonomia baseada em escolhas. Em um cenário em que inteligência artificial, infraestrutura computacional e dados se tornam componentes cada vez mais importantes da competitividade entre países, a capacidade de escolher fornecedores, desenvolver soluções próprias e preservar recursos estratégicos pode se transformar em ativo econômico e geopolítico.
Para o Brasil, a oportunidade estaria justamente em transformar suas vantagens existentes em capacidade tecnológica, poder de negociação e presença mais relevante na economia global da IA.