O mercado fluminense de tecnologia inicia uma nova fase de articulação. Assespro-RJ, Riosoft e TI Rio decidiram atuar conjuntamente em temas considerados fundamentais para aumentar a competitividade das empresas, fortalecer a inovação e colocar a economia digital em posição de maior destaque nas estratégias de desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro.
A parceria institucional foi oficializada durante o Rio Innovation Week, no painel “Liderança organizada para um Rio mais inteligente”. A partir do acordo, as três organizações passam a desenvolver uma agenda comum para interlocução com governos, universidades, centros de pesquisa, empresas e instituições de financiamento.
Não se trata de criar uma nova entidade nem de substituir as organizações existentes. Assespro-RJ, Riosoft e TI Rio continuarão independentes. A diferença é que, em questões estratégicas compartilhadas, poderão combinar conhecimento, relacionamento institucional e capacidade de mobilização.
Esse arranjo procura responder a uma necessidade antiga do setor: transformar a quantidade e a qualidade dos ativos tecnológicos existentes no Rio em uma força econômica cada vez mais integrada.
Índice
Três entidades, uma agenda econômica compartilhada
Quando empresas de um mesmo segmento enfrentam desafios semelhantes, atuar de maneira fragmentada tende a reduzir o alcance das soluções. Questões tributárias, regulatórias, educacionais ou relacionadas a financiamento dificilmente podem ser resolvidas por uma companhia isoladamente.
É nesse ponto que a nova articulação ganha relevância. As entidades pretendem consolidar demandas, identificar gargalos e construir propostas capazes de representar diferentes perfis de empresas — das startups em fase inicial às organizações mais consolidadas.
O movimento também evidencia uma mudança na maneira como o setor de tecnologia é percebido. Software, inteligência artificial, computação em nuvem, segurança digital, automação e análise de dados já não pertencem somente ao universo das empresas especializadas em TI. Essas tecnologias estão dentro de hospitais, bancos, indústrias, empresas de petróleo, varejistas, operadores logísticos e órgãos governamentais.
Por isso, fortalecer o ecossistema tecnológico significa melhorar a capacidade competitiva de vários outros setores simultaneamente.
O desafio de transformar ativos tecnológicos em escala
O Rio dispõe de ativos que colocam o estado em posição relevante no cenário brasileiro de ciência e tecnologia. De acordo com as informações divulgadas pelas entidades, há mais de 30 mil empresas de TI no território fluminense.
A esse contingente se somam universidades, centros científicos, parques tecnológicos, incubadoras, aceleradoras e profissionais especializados. Poucas regiões brasileiras apresentam simultaneamente concentração empresarial, produção científica e presença de grandes indústrias demandantes de inovação.
Ainda assim, quantidade não é sinônimo de integração.
É possível imaginar esse ecossistema como uma cidade cheia de avenidas modernas, mas com poucas conexões entre determinados bairros. A infraestrutura existe, porém algumas rotas continuam difíceis. Uma startup pode desconhecer uma oportunidade de financiamento. Uma universidade pode desenvolver tecnologia com potencial comercial sem encontrar uma empresa parceira. Uma companhia do interior pode permanecer distante de redes de negócios concentradas na capital.
A aliança quer abrir mais dessas “vias de conexão”.
Mais acesso a fomento e políticas públicas
Facilitar a aproximação entre empresas e instituições de fomento está entre as prioridades. O desenvolvimento de novas tecnologias costuma demandar capital antes mesmo de existir receita suficiente para sustentar todo o processo, especialmente em projetos de pesquisa, prototipagem e inovação de maior risco.
Por isso, programas públicos, linhas de crédito e editais podem desempenhar papel importante na expansão das empresas.
Assespro-RJ, Riosoft e TI Rio pretendem ampliar a interlocução com organizações responsáveis por esses recursos e disseminar informações sobre oportunidades disponíveis. Ao mesmo tempo, querem participar mais ativamente das discussões sobre políticas públicas que influenciam o ambiente de negócios.
A agenda envolve governos municipais, Governo do Estado, ministérios, Congresso Nacional e órgãos federais ligados ao desenvolvimento econômico e tecnológico.
Questões regulatórias e tributárias também estarão presentes. Um ambiente previsível, que estimule investimentos e permita crescimento sustentável, é visto pelas entidades como condição essencial para aumentar a competitividade das empresas fluminenses.
Conexão regional busca reduzir a fragmentação
Outro desafio colocado no centro da estratégia é a integração entre a Região Metropolitana e polos econômicos do interior.
A inovação fluminense não termina quando se ultrapassam os limites da capital. Diferentes cidades desenvolveram competências ligadas à indústria, energia, pesquisa, agricultura, serviços especializados e desenvolvimento de software. Ao conectar esses polos, o estado pode formar cadeias de inovação mais completas.
A intenção é aproveitar vocações locais em vez de tentar reproduzir exatamente o mesmo modelo em todas as regiões.
Uma cidade com forte presença industrial pode demandar soluções de automação. Outra, próxima a universidades ou centros científicos, pode se especializar em pesquisa aplicada. Um terceiro polo pode ganhar relevância na formação de profissionais. Quando essas capacidades passam a conversar, a soma tende a produzir mais resultados do que iniciativas isoladas.
O fortalecimento regional também pode gerar oportunidades profissionais em diferentes municípios e contribuir para reduzir a concentração das vagas tecnológicas na capital.
Talentos, investimentos e competitividade ganham prioridade
Nenhuma estratégia tecnológica funciona sem profissionais qualificados. Para empresas que dependem de programação, engenharia, dados, segurança digital ou inteligência artificial, o conhecimento está no centro do modelo produtivo.
Por isso, formação e retenção de talentos estarão entre os temas trabalhados conjuntamente.
A aproximação com universidades e instituições de ensino pode ajudar as empresas a comunicar com mais clareza quais competências procuram. Na direção inversa, organizações acadêmicas podem apresentar pesquisas, projetos e novos profissionais ao mercado.
Outro objetivo é ampliar a atração de investimentos. Um ecossistema que demonstra organização institucional, disponibilidade de talentos, infraestrutura científica e diálogo com governos tende a apresentar condições mais favoráveis para empresas que analisam onde instalar novas operações.
A produção de indicadores setoriais deverá reforçar esse trabalho, permitindo mostrar de maneira mais precisa a dimensão econômica da tecnologia no estado.
Governança compartilhada preserva autonomia das organizações
A estrutura definida para a aliança prevê decisões colaborativas. Projetos conjuntos deverão estabelecer objetivos, responsabilidades e resultados esperados antes da execução.
Ao mesmo tempo, cada uma das três organizações continuará preservando sua governança e liberdade institucional.
Esse modelo permite cooperação em pautas comuns sem eliminar diferenças de atuação. É uma fórmula que pode oferecer flexibilidade, já que nem toda iniciativa precisa envolver exatamente os mesmos formatos ou estruturas.
Os primeiros movimentos também incluirão encontros com candidatos e pré-candidatos a cargos do Executivo e Legislativo. A intenção declarada é apresentar as demandas econômicas do setor e conhecer propostas relacionadas a tecnologia.
As entidades afirmam que as reuniões seguirão critérios de pluralidade e independência político-partidária, sem manifestação de apoio eleitoral.
A mensagem central da nova articulação é econômica: transformar tecnologia em um vetor mais forte de produtividade, investimento, empregos qualificados e desenvolvimento para o Rio de Janeiro. A partir dessa agenda compartilhada, o setor tenta fazer com que seu tamanho e sua capacidade de inovação também se traduzam em maior influência e maior integração.